Amarrações do amor

Amarrações do amor

No capitulo V do Livro II do célebre grimório Demonology (1597) do Rei James I de Inglaterra ( 1566 –1625), dá-se nota de que «as bruxas podem embruxar a vida de homens ou mulheres, usando figuras que os representam». È desta forma que o Demonology do Rei James I de Inglaterra descreve alguns dos métodos usados nas bruxarias e amarrações de magia negra, e comprova a existência desses fenómenos.

O Malleus Maleficarum ( 1486), dos demonologistas Jacob Sprenger ( 1438 – 1495), e Heinrich Kramer,  ( 1430 – 1505), no seu capitulo XI que quando a bruxa faz uma figura de cera para embruxar alguém, e faz algo ao boneco para ferir a pessoa como como perfura-la, embora o dano esteja a ser causado ao boneco, porem o Diabo está a ferir o homem tal conforme foi feito pela bruxa ao boneco.

Já na Antiguidade, o filosofo e escritor Horácio ( 65 – 8 a.C), descreve na sua obra os sinistros ritos das bruxas, celebrados no cemitério de Esquine, onde as bruxas ali procuravam por ossos de defuntos amaldiçoados e ervas ocultas, invocando espectros, e banqueteando-se num cordeiro rasgado em pedaços, cujo o crânio depois usavam para invocar a demónios. Naquele cemitério, as bruxas pagãs faziam bonecos representativos das vítimas dos seus trabalhos de magia negra, e operavam as mais fortes amarrações

Quanto ás amarrações, conforme faz notar a encyclopedia de Oxford sobre «Witchcraft in the early Modern Europe and Colonial America», a magia erótica ou amorosa sempre foi particularmente forte, e particularmente violenta, pois que funciona essencialmente por meios coercivos. Nela, a vítima é castigada até ceder ao mandante da magia negra. Usam-se de todos os meios, desde queimar a efigie de uma pessoa em caldeirão para que a  alma da vitima arda como se ardesse no fogo do inferno em padecimentos ate que ceda aos fins do bruxedo; usam-se de agulhas que trespassando um boneco baptizado com o nome da vitima, então essa criatura sofra padecimentos e aflições ate ceder ao mandante da bruxaria; entoam-se encantamentos nos quais se diz «Sofrerás até que te entregues», «Ficarás amaldiçoado até que venhas á pessoa X », «Que apenas de livres destes tormentos quando cederes», etc. As amarrações, actuam por isso através de violentas maldiçoes dirigidas á vítima desse tipo de bruxedo, com a finalidade de a forçar ou coagir a entregar-se a alguém. Tal facto é intemporal, e pode ser historicamente comprovado, conforme se pode observar no caso da bruxa Ganbrina. A bruxa Ganbrina era abundamente requisitada devido ás suas amarrações, e imensas era as mulheres de todas as condições sociais que a procuravam, desde a mais humilde camponesa á mais elevada dama da realeza, umas procurando que o marido largasse a concubina, e outras desejando ser as concubinas preferidas do marido de outrem.  E a todas a bruxa dizia o mesmo: o meio para isso é apenas um, e é a coerção. Apenas forçado o homem se entregará, porque se fosse para se entregar de seu livre humor ou capricho, então ele já o teria feito por si mesmo. Logo: se não o faz de sua livre vontade, é porque não o quer. E se não quer, então apenas forçando-o é que ele cederá. A linguagem da força é a única linguagem que o homem conhece, pois que o homem não é dado ás subtilezas que são típicas do reino feminino. O caso da bruxa Ganbrina foi célebre, e acabou registado na obra «Una strega reggiana» de 1906.

O caso das bruxas de Somerset, foi um dos casos mais importantes nos anais da história da bruxaria, e deu origem a um documento de investigação de 1681, que relata a sua existência das bruxas, e dos espantosos eventos observados. O caso teve particular significância, porquanto foi um dos poucos casos em bruxas e bruxas admitiram livremente a sua existência, e a sua filiação numa comunidade de bruxas. Por volta de 1660, haviam duas grande colmeias de bruxas activas na região do condado de Somerset, na Inglaterra. Ambos eram presididos pelo Diabo, que se dava a manifestar incorporando num homem através de possessão demoníaca, e apresentando-se sempre sob o nome de Robin. Uma bruxa de nome Ann Bishop era a rainha de uma das colmeias de bruxas constituída por seis bruxas e oito bruxos.  As colmeias de bruxas realizaram sabbats satânicos nocturnos, nos quais o diabo sempre se fez manifestar, fosse apenas em espírito, ou fosse encarnado num homem. Os festins das bruxas de Somerset constavam de carnes, bolos que eram um despertar irrecusável da gula e quantidades generosas de cerveja e vinho, tudo providenciado pelo Diabo. Depois da refeição, as bruxas dançavam. As suas danças em torno de um caldeirão ou e uma fogueira, realizavam-se sempre no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio, simbolizando isso a oposição ás convenções cristãs.  Era o momento em que os demónios tomavam as bruxas, que se lhes entregavam em ritos de profana luxuria e devassa lascívia. As pecaminosas heresias e abominações carnais tomavam conta dos ritos, para grande deleite do Diabo. Apos o banquete e as danças, as bruxas realizavam vários trabalhos de magia negra. Nesses trabalhos de magia negra, as bruxas cravavam agulhas ou espinhos em bonecos de cera, assim como os polvilhavam com pós mágicos, com ervas de magia negra, e ungiam-nos com sangue de galo preto oferendado do demónio em rito satânico. Os bonecos eram baptizados pela própria mão do Diabo, assistido que era no baptismo por duas bruxas que representavam as madrinhas de baptismo. O boneco uma vez baptizado com o nome da pessoa que se desejava embruxar, gerava uma relação espiritual com a própria vítima da bruxaria. Tudo aquilo que fosse por isso feito no boneco, acabaria por suceder na vítima, e em carne-e-osso.E era assim que as lendárias bruxas de Somerset realizam as mais fortes e celebres amarrações.

Por volta dos anos de 1664, a bruxa Alice Huson habitou em East Riding, Yorkshire, Inglaterra. Era uma viúva, como sucede com muitas das bruxas, a quem o Diabo desejou para sí mesmo, e por isso a tomou logo após o falecimento do seu esposo. Tomou-a lascivamente, marcou-a com a marca da bruxa, e revelou-lhe os segredos das artes da magia negra. Daí em diante, a bruxa dedicou-se ao ofício da bruxaria, oferencendo grandes resultados a quem procurava aos seus préstimos ocultos. A bruxa encontrou-se com o demonio nas charnecas que rodeavam a sua vila, e o Diabo fez-se aparecer incorporando num homem através de possessão demoníaca, e o homem estava montado num belo cavalo negro. O demonio seduziu a viúva, prometendo-lhe que dali em diante nada lhe faltaria, que Ele seria seu esposo e amo, que Ele cuidaria dela, desde que ela lhe dedicasse veneração e prestasse culto. Foi nesse momento que a viúva se ajoelhou e adorou ao demónio, tendo-a ele tomado carnalmente. Depois do demónio ter copulado com ela, deu-lhe a marca do Diabo. Dai em diante, havia noites em que um espirito demoníaco familiar a visitava, e alimentava-se de gotas seu sangue. Depois de se alimentar, ensinava-lhe segredos de magia negra, que lhe permitiam executar as mais fortes bruxarias. Estes eventos foram mais tarde escritos em missivas pessoais pelo padre Weellfet, motivo pelo qual acabaram por ficar historicamente documentadas. Uma jovem da vila afirmava abertamente que Alice era uma bruxa, coisa que os seus pais se recusavam a acreditar, afirmando que bruxas não existem, e que aquilo não passava dos delírios fantasiosos de uma imaginação fértil. A adolescente foi avisada pela bruxa para parar de falar mal dela, coisa que os pais também fizeram, repreendendo-a. A verdade é que depois de terem visto a filha mudar de voz e flutuar um pouco acima da cama do seu quarto, tendo tudo sucedido logo apos e jovem ter recebido uma repreensão da bruxa, as coisas mudaram de figura, e os factos comprovavam que a filha tinha razão nas suas afirmações. A jovem parou com as suas brincadeiras, e os estranhos eventos também pararam imediatamente.

Um dos seus trabalhos de amarração tornou-se famoso, quando um certo homem de nome Dick Warmers sofreu padecimentos atrozes por ter desprezado uma mulher que pediu ajuda á bruxa. Depois da bruxa Alice ter lançado a sua amarração, o homem tanto sofreu, que os seus inexplicáveis padecimentos tornaram-se falados e comentados pela população local. E a verdade é que os padecimentos apenas cessaram quando Dick se foi entregar á mulher antes desprezada. Assim que cedeu á mulher, todos os seus padecimentos desapareceram e esfumaram-se tão misteriosamente quanto tinham aparecido. As amarrações da bruxa Alice não falhavam. Nunca.

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