Magia negra e Satanismo

Magia negra e Satanismo

O satanismo envolve o culto e devoção a Satanás, assim como envolve o culto e veneração a demónios, e igualmente aos deuses e deusas pagãos das antigas religiões. No satanismo, professa-se igualmente existência de bruxas e bruxos, a pratica das artes da bruxaria e da magia negra, a persecução dos mistérios do oculto, não enquanto pecados, mas sim como expressões livres de quanto o mundo do espírito pode influenciar o mundo dos vivos. Encara-se o mundo do espírito enquanto uma realidade, um mundo tao real quanto o mundo dos vivos, e que um e outro se podem cruzar e influenciar através da magia negra, ou seja, o poder magico alcançado através de aliança com espíritos de trevas e demónios.

O Satanismo desde a Idade Media

Na Idade Media, ordens religiosas como Cátaros, Valdesianos e Templários praticaram a doutrina satanista, e prestaram culto a Satanás , assim como veneram a demónios, e adoraram ás antigas Deusas da antiguidade, considerando que o Deus que a Igreja anunciava era um Deus cruel, vingativo e sanguinário. Por isso, veneraram a Satanás, assim como adoptaram o ancestral culto das Deusas, entidades vistas como demónios pela cristandade, e que concediam favorecimentos, prosperidade, fertilidade, prazeres e deleites, ao invés dos massacres, castigos, vinganças e punições do Deus da Igreja de Roma. O conceito de Lúcifer enquanto um «portador de luz», era o oposto de um Deus que negava o acesso á sabedoria e ao conhecimento, conforme sucedeu com Eva e Adão, por esse motivo castigados, amaldiçoados e expulsos do Paraíso. Acreditava-se que o conhecimento, a auto-estima, o prazer, a abundância da riqueza, a paixão, o bem-estar, o saciar dos apetites, a sabedoria, são encaradas com virtudes, e não pecados. A auto-castração, viver em pobreza, viver em sofrimento, viver em auto-culpabilidade permanente, e viver constantemente em temor como um animal prostrado com receio do severo castigo vindo do chicote do seu dono celestial… não eram já coisas encaradas com virtudes, como o são pelo Deus da Igreja. Dai o afastamento da Igreja, e a incursão pelos caminhos do seu oposto, o satanismo.

Os Satanistas desde a Idade Média apontam uma frase bíblica, na qual Jesus nomeia o Diabo ao invés de Deus, enquanto Pai, (João 8:44). Outra passagem é mencionada, onde é confirmado que o Diabo é o príncipe e senhor deste mundo (João 12:31), e outra onde se atesta que o Diabo é o Deus deste mundo ( 2 Coríntios 4:4) : Essas teses, também apontam que Jesus esteve diante de um Pacto demoníaco ,( Lucas 4:5-8 , Mateus 4:8-9), e que observou os poderes que o Diabo concede a quem com ele faz Pacto, conforme o Diabo lhos descreveu a Jesus, nas suas tentações do deserto. Curiosamente, estas mesmas passagens são usadas por vários demonologistas da Idade Media para confirmar Biblicamente a existência de Pactos com o Diabo, e dos poderes que daí advém para as bruxas e bruxos. Foi com fundamento nestas passagens que muitas praticas ritualísticas satânicas foram adoptadas em ritos de bruxas e bruxos, assim como por padres satânicos e freiras satânicas.

Na Idade Média, um dos mais célebres casos de culto satânico foi o da ordem dos Templários, onde se venerou a demonios, se praticou magia negra, e onde existiram sacerdotes satanicos no seio da própria Igreja. A ordem religiosa foi fundada na Idade Média por Hugo de Payens, a ordem religiosa dos Templários (1118 – 1312) era a mais poderosa da Europa. Tão poderosa, que os mais poderosos reis europeus se curvavam perante as suas riquezas e poder. Até o próprio Vaticano temia a ordem dos Templários, pelo que muito conspirou para a extinguir. Tais conspirações acabaram por ter sucesso, com a ajuda do rei Francês Filipe IV, o belo. Quando a ordem dos Templários foi extinta, Jacques de Molay (1243 – 1314), o seu ultimo grão mestre, foi aprisionado e condenado á morte pela pratica de magia negra, e por celebração de culto adoração ao Diabo. Sabe-se que antes da sua execução, ( ocorrida em 18 Março 1314), Jacques de Molay – o ultimo grão-mestre dos templários – rabiscou encantamentos de magia negra nas paredes da cela onde estava detido, e disse na hora da sua morte, que no prazo de um ano, todos os seus carrascos iam morrer. A verdade é que meses após a sua morte, os nomes por ele rabiscados nas formulas de magia negra faleceram todos, fosse de estranhos acidentes, ou de sinistras doenças que subitamente os infestaram. Até o próprio rei de França que o mandou matar, morreu misteriosamente e ainda relativamente jovem, e nesse mesmo ano, 9 meses depois. A maldição de magia negra não falhou. Nenhum deles sobreviveu á maldição do grão-mestre.

Sobre os Templários e a sua crença satanista, fez menção ao célebre ocultista Francês Eliphas Levi ( 1810-75), na sua gravura de um bode sabático, ou o bode de Mendes, ou Baphomet. O demonio com cabeça de bode, era o demonio das bruxas que presidia á celebração dos seus Sabbat, e era o Deus venerado pelos templários. Na visão de Eliphas Levi, o bode representava o poder supremo do Universo, visão que os Templários também partilharam.

Origens históricas do Satanismo

O historiador Parisiense Jules Michelet ( 1798 – 1874) debruçou-se sobre o satanismo e a bruxaria na sua notória obra Satanism and Witchcraft, publicado em Londres no ano de 1863,  assim como Joris-Karl Huysmans ( 1848 – 1907), no seu livro Lá-Bas , onde o autor acaba por concluir que o Satanismo, longe de ser algo do passado, está vivo e bem vivo, no virar do século XIX para o século XX.  O próprio celebre poeta Francês Charles Boudelaire (1821 – 1867), abordou o Satanismo no seu notório poema Les Litanies de Satan, ou As Litanias de Satan.

Há perspectivas históricas que defendem que o satanismo, com os seus ritos de magia negra, com as suas invocações aos mortos, com as suas conjurações a demonios, e com as perversões litúrgicas dos ritos oficiais da Igreja, tem raízes milenares no culto maniqueísta da antiga Pérsia.

Maniqueu (216-274) foi um teólogo, um religioso, um profeta e um escritor. Foi também fundador do maniqueísmo, uma religião gnóstica e dualista que se iniciou no seculo III, presentemente já extinta, mas que foi popular na Antiguidade. Esta religião no seu auge chegou a alcançar as fronteiras de China, e o norte de África. Foi por isso ferozmente combatida na Babilónia, assim como pelo império de Roma já sob governo de imperadores cristãos. Por todo o lado onde se espalhava, a religião de Maniqueu foi considerada herética, tal como o satanismo.  O maniqueísmo foi a grande religião rival do cristianismo durante séculos, e a sua tentativa de renascimento das antigas crenças pagãs era intolerável para a Igreja. Por isso, a Igreja perseguiu os crentes do maniqueísmo até a sua quase-extinção.

Porque é que o maniqueísmo era uma heresia para a Igreja ? Porque a religião maniqueísta, era uma religião gnóstica e dualística. «Gnóstica», significa que se pode alcançar a salvação através do conhecimento, e não simplesmente através da exigência de uma fé cega e de uma abstinência castradora, conforme defende a Igreja. «Dualística» significa que acredita que a Criação – o universo, ou os universos, e tudo aquilo que existe – provem da interacção e oposição de dois princípios opostos: o bem e o mal, a luz e as trevas, o calor e o frio, o positivo e o negativo. Sem esta contraposição dinâmica e dualística entre dois opostos, não há movimento, não há energia, não há criação, e logo… não há nada. Logo, para haver uma criação, terão sempre de haver estes dois princípios opostos que se confrontam, que se contrapõem, e que interagem.  No fundo, para haver criação tem de haver uma entidade de luz, e uma de trevas, um Deus e um Diabo. Ambos são Deuses, ambos são criadores, ambos são igualmente poderosos, e ambos – interagindo dualísticamente entre sí – são o motor que dá origem a tudo aquilo que existe. Em suma: uma tal filosofia, é diametralmente antagónica àquilo que defende a doutrina da Igreja, que é a existência de um único Deus Criador. Ora, toda esta doutrina religiosa maniqueísta, é uma pavorosa heresia para o cristianismo de Roma. Porem, foi o berço do Satanismo. A crença num Deus da Terra tão igualmente poderoso como Deus Javé dos céus, e que se opõem ao Deus dos céus, sendo esse oposto o Senhor da Terra e do mundo dos mortos, por antagonismo ao Deus cristão que é o Senhor do Céu… tais conceitos, são noções muito similares aos conceitos das religiões pagãs da Antiguidade. Tais noções podem ser encontradas na religião da Grécia Antiga, que via Zeus como um Deus no céu, sentado do alto do seu trono no Olimpo, e Hades como um Deus na terra e sentado no seu trono do Submundo, ou do Além-túmulo, ou o mundo dos mortos. Da mesma forma o viam as religiões nórdicas, com a dualidade entre Odin de Hela ou Loki. No cristianismo, essa noção era preenchida pela oposição entre Deus e o Diabo, porem ambos – na perspectiva maniqueísta – vistos como dois Deuses Criadores de igual poder e estatuto.

Acredita-se que os célebres Templários foram beber aos conhecimentos desta ancestral religião maniqueísta, e foi a partir daí – tal como sucedeu com os monges Cátaros e padres Valdesianos – , que nasceu o Satanismo. Com os templários e o renascimento do interesse por um Arqui-Demonio todo-poderoso que se opõem em pé de igualdade com Deus, deu-se inicio a uma violenta perseguição e condenação de bruxas e bruxos ao longo de toda a Idade Media, a até depois dela.  O termo «satanismo» ficaria soterrado nas areias do tempo, para apenas ressurgir em 1896, aquando da celebração de Missas Negras.

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